Palavras proferidas por Edmo Rodrigues Lutterbach, em 31 de janeiro de 2009, a convite dos professores Luiz Fernando Conde Sangenis e Anabelle Loivos Considera Sangenis, autores do projeto “100 anos sem Euclides”, diante da herma de Euclydes da Cunha, em Cantagalo, berço de nascimento do escritor.
Inesquecível Euclydes da Cunha:
O momento é de apreensão, de sentimento e de alegria. Apreensão porque recebemos honroso convite formulado por uma conterrânea que tem cintilado na área educacional – a professora adjunta da Faculdade de Educação da UFRJ, Anabelle Loivos Considera Conde Sangenis.
Solicitou-nos que disséssemos algo, nesta ocasião significativa, diante daqueles que admiram Euclydes da Cunha e de pessoas interessadas em conhecer a vida e a obra do ilustre cantagalense.
A professora Anabelle e seu marido, Luiz Fernando Conde Sangenis, adjunto da Faculdade de Formação de Professores da UERJ, tiveram a iniciativa de preparar um projeto, a que deram o título “100 anos sem Euclides” – proposição do Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência. Nesse documento figuram como pesquisadores.
Relutamos, inicialmente, por entender que tal missão deveria ser afeta à própria Anabelle Loivos Considera, professora experiente, capaz, pesquisadora atenta, possuidora de muitíssimos recursos.
Por que nós e não a douta profitente Anabelle?
Ela, que tanto trabalhou na elaboração do documento, que tanto tem lutado, ao lado de Luiz Fernando, para a realização de homenagens a Euclydes, elaborando um projeto que teve ampla divulgação e recebeu aplausos de todos que tiveram a oportunidade de conhecê-lo.
Não é esta uma homenagem tão grandiosa quanto aquelas que o Município de São José do Rio Pardo presta a Euclydes da Cunha desde o ano 1912, portanto há 96 anos ininterruptos, mas é confortador estar neste ambiente respeitoso, demonstrando a nossa reverência, a nossa empatia a Euclydes, neste ano do centenário de sua morte, movido por fortíssimo sentimento de admiração, abalado por crescida disposição emocional, pelo respeito que nos domina quando ouvimos pronunciar as quinze letras desse aurifulgente nome, sempre, sempre, sempre cercado de deferência, vendo grande número de admiradores outros, participando deste evento, contemplando a efígie do grande filho desta terra.
E, à frente desta herma – que nos primórdios significava a representação do Deus Hermes –, constituída pela cabeça, pescoço e parte do tronco, cortada à altura dos ombros e acima dos mamilos, sustentada por um plinto, proporcional, o que vemos? O busto euclidiano.
Merece aplausos o escultor Antônio Pitanga, pai daquela que foi dedicada colaboradora da Academia Fluminense de Medicina, Maria Helena Pitanga (já descida ao túmulo), com a qual mantivemos inúmeros contatos e com a qual conversamos sobre trabalhos por ele realizados.
Louvação também a quem a idealizou: o redator da “Tribuna de Cantagalo”, Dr. Mário Freitas Oberlander, autor do livro Euclydes da Cunha – Apostila para um ensaio crítico, publicado em 1925. Foi neste local colocada em 2 de outubro de 1919, ao som do “Hino de Cantagalo”, de autoria do Dr. Artur Nunes da Silva, também aqui nascido, que acabamos de ouvir.
Nesta “Praça dos melros”, há nove décadas, no bronze, está busto exposto num pedestal, ao ar livre e à sombra de árvores, algumas das quais bicentenárias.
Quem por esse jardim transitar terá as atenções volvidas para o geólogo, o geógrafo, o botânico, o ecologista, o etnógrafo, o sociólogo, o cientista, o escritor inimitável, o amante das letras, ou como acentuou Gilberto Freire, “o autor glorioso de uma obra, uma das personalidades mais fortes, mais criadoras e mais ricas de substância humana e da essência brasileira que já passaram pelas letras, pela cultura e pela vida do Brasil”; olhará para Euclydes e lhe agradecerá por haver tornado conhecido, em inúmeros países, cujos filhos traduziram Os Sertões para seus idiomas, o nome da nossa terra.
Euclydes, “na generosidade de seu pensamento e de ação, foi um estrênuo professor de brasilidade”, como percepcionou um articulista de O Globo, em 1966. “Euclydes ajudou como ninguém a forjar a consciência nacional – não a decorrente de uma visão sentimental e romântica – mas a que se traduz no conhecimento do Brasil: da terra e da alma brasileira.”
Seu nome, Euclydes, exalta o seu e o nosso distrito, o nosso município, o nosso estado, o nosso país; engrandece a nossa cidade; é destaque no galarim da fama, enobrece, nobilita as instituições culturais que integrou: a Academia Brasileira de Letras e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. É nome imensurável, inescurecível, imortal.
A mesma emoção sentem aqueles que penetram na Câmara Municipal de Niterói, onde outro busto, insculpido por Honório Peçanha, no ano 1967, lá foi colocado. E quem o fixar, igualmente no bronze, delineado pelo grande escultor, junto ao Palácio Euclydes da Cunha, no Fonseca, inaugurado na passagem do IV Centenário de Niterói, quando governador do estado, Raimundo Delmiriano Padilha, em 20 de janeiro de 1973, por certo repensará no valor deste homem.
Imensa é a nossa gratidão ao jornalista Mário Oberlander, ao governador Raymundo Padilha e aos escultores Antônio Pitanga e Honório Peçanha.
Ora, a gratidão é um sentimento que nos recorda o benefício recebido; a gratidão é um sentimento íntimo que nem sempre se revela por meio da palavras, lemos no Dicionário de Sinônimos, de Henrique Brunswick, editado no ano 1899.
Sintetizando: o reconhecimento é, por assim dizer, o princípio da gratidão, e a gratidão, o complemento desse reconhecimento.
Observara Cícero, considerado o maior orador latino, nascido no ano 106 antes de Cristo, que nullum officium referenda gratia magis necessarium est. Nenhum dever é mais importante que a gratidão.
Estamos diante da imagem de um conterrâneo que viveu pouco: 43 anos, 6 meses e 27 dias, descendo seu corpo ao túmulo em 16 de agosto 1909.
Sua morte abalou a intelectualidade brasileira.
A primeira notícia divulgando a tragédia fora feita pelo então deputado Coelho Neto, na Câmara. Coelho Neto, o primeiro a ser chamado à Estrada Real de Santa Cruz, 214, para certificar-se do consternador episódio.
No dia imediato, traduziu ele, na Câmara, sua fortíssima emoção, ao encontrar, “sobre uma cama de ferro, coberto por um lençol enxovalhado, o cadáver de Euclydes”. E confessa: “pareceu-me, de improviso, que eu estava entrando, páginas a dentro, pela obra do grande mestre grego, tendo à frente de meus olhos o episódio de Átrides; era um trecho de Oréstia, tal a grandeza da tragédia.”
E sentindo faltar-lhe, quase, as expressões, exortava que o Brasil acompanhasse o grande espírito de Euclydes da Cunha, como o povo de Israel acompanhava a ascensão dos anjos – primeiramente para o céu de Deus, em que haveria de ficar perenemente vivo o espírito que residiu no corpo do homem mártir desaparecido.
É com grande saudade – prosseguiu – “é com grande saudade que eu, amigo de Euclydes da Cunha, falo à Câmara dos Deputados: é com pesar que eu, brasileiro, me refiro a este nome; é com gratidão de sertanejo, com a minha alma de filho das terras interiores deste país, que agradeço àquele beneficiador dos simples, um livro primoroso”.
Posteriormente, ainda em 1909, Rio Branco, fazendo o necrológio de Euclydes no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, enalteceu-o com o título de “intrépido explorador do Alto Purus; homem que tanto prometia enriquecer ainda a nossa literatura, homem de delicado pundonor que sempre foi, e cuja pureza de sentimentos e alto valor intelectual pude conhecer de perto nos breves anos de convivência e de estudos, de trabalhos e de esperanças patrióticas, homem que foi vitimado, no vigor da idade, numa terrível tragédia”.
Graças a esses dois homens, Rio Branco e Euclydes da Cunha, tem o Brasil hoje o Estado do Acre.
José Maria da Silva Paranhos do Rio Branco, em carta a Manoel Rodrigues Pimenta da Cunha, pai de Euclydes, externou-lhe a sua dor, o seu sentimento:
“Atordoado pela nossa grande desgraça do dia 15, não pude dirigir-lhe antes palavras de amizade, de simpatia e de conforto; o terrível golpe que feriu seu coração de pai, feriu igualmente o meu coração de amigo e sincero admirador dos grandes dotes intelectuais e morais do seu nobilíssimo filho; sei quanto perdi de sincero afeto com o desaparecimento desse bom amigo e companheiro de trabalhos; sei o quanto de esperanças fundadas perdeu o Brasil (Rio Branco e Euclydes da Cunha, Imprensa Nacional, 1946, p. 73).
Senhoras e senhores:
Também nós, cem anos depois, repetimos com idêntica franqueza as palavras de Rio Branco: também nós sabemos o quanto de esperanças fundadas perdeu o Brasil com a morte de Euclydes da Cunha.
Obrigado a todos pela presença a esta manifestação cívico-cultural de abertura do Ano Nacional de Euclides da Cunha, nesta Praça João XXIII, em Cantagalo.