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Um evento para ficar na memória
Seminário internacional 100 anos sem Euclides ocorre em Cantagalo/RJ e traz consigo gratas surpresas
Ousadia e coragem, dois substantivos que servem como uma luva para o Seminário Internacional 100 anos sem Euclides. Ocorrido entre os dias 25 e 27 de setembro de 2009, na pequena cidade de Cantagalo, no estado do Rio de Janeiro, o evento cultural realizou um grande feito num país onde não se tem muito apreço pela cultura literária: reavivou a memória de um dos maiores escritores que o Brasil já teve em meio à população de uma cidade pequena e esquecida pelas políticas públicas de cultura. Imaginem os mais céticos críticos da realidade brasileira o que é ter a ideia de levar o nome de um autor como Euclides da Cunha, clássico da literatura nacional, tido por muitos como dono de uma linguagem inacessível, para o público geral. Agora, juntem a essa imagem levar esse mesmo autor para a população de uma cidade pequena do norte fluminense, a 180 quilômetros do Rio de Janeiro, serra acima, e trazendo consigo alguns dos maiores entusiastas e especialistas sobre a obra desse autor, pessoas que vieram inclusive de fora do Brasil, para um evento cultural literário num país onde pouco se lê. Fracasso? Muito pelo contrário, um evento memorável e surpreendente, com a participação ativa de especialistas, estudantes e populares. Se você consegue imaginar, pode ter uma ideia do que foi o Seminário Internacional 100 anos sem Euclides. O evento foi aberto pelo professor Leopoldo Bernucci (da Universidade da Califórnia, em Davis) e, depois de diversos eventos com a presença de ilustres nomes do euclidianismo e de ações culturais, foi encerrado por uma aula-show do escritor paraibano Ariano Suassuna e pela palestra do professor da Universidade de Berlim e tradutor de Os Sertões para o alemão, Berthold Zilly.  Anabelle Loivos e Anélia Montechiari, mulheres cantagalenses
Os professores Anabelle Loivos Considera Sangenis (professora adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no Departamento de Didática da Faculdade de Educação), Anélia Montechiari Pietrani (Professora de Literatura Brasileira da UFRJ) - ambas na foto acima - e Luiz Fernando Conde Sangenis (professor adjunto da Faculdade de Formação de Professores da UERJ) foram os grandes arquitetos do Seminário Internacional 100 anos sem Euclides. Com sua coragem e disposição, arregimentaram várias instituições que ajudaram a tornar possível a realização do evento. Entre as principais parcerias, estavam as faculdades de Letras e Educação das universidades Estadual e Federal do Rio de Janeiro; o decisivo apoio administrativo e tecnológico do Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência (ILTC); a UNESCO; a FUNARJ; o SESC-RJ e o Grupo Euclidiano de Atividades Culturais de Cantagalo (GEAC), além de diversos outros apoiadores. OS EVENTOS
Os organizadores encontraram uma fórmula inteligente para realizar paralelamente os eventos acadêmicos e os eventos culturais populares. As palestras, conferências e comunicações, voltadas especificamente aos professores e pesquisadores, foram realizadas no hotel-fazenda Pesqueiro da Aldeia, a alguns minutos do centro de Cantagalo, enquanto que as outras programações aconteciam na praça central da cidade, como as realizadas pelo SESC-RJ (foto abaixo), com atendimento ao público, recreação infantil e um caminhão-cinema. Uma experiência bem diferente e enriquecedora para todos os que tiveram a oportunidade de participar do evento.  SESC-RJ em ação na praça
 Participantes do Seminário vieram de todas as partes do Brasil
O Seminário teve início na sexta-feira, dia 25 de setembro, com uma apresentação musical primorosa do Coral Cantomusarte, de Nova Friburgo-RJ, e com a conferência de abertura do professor Leopoldo Bernucci, da Universidade da Califórnia, esbanjando seu conhecimento profundo acerca da obra e da vida de Euclides da Cunha.  Cícero Sandroni em Cantagalo
No sábado, 26 de setembro, segundo dia do Seminário, o presidente da Academia brasileira de Letras, Cícero Sandroni (foto), abrilhantou o evento com a palestra "100 Anos Sem Euclides". Durante seu discurso, Sandroni misturou um profundo conhecimento sobre aspectos biográficos de Euclides da Cunha com a emoção vertida em lágrimas, quando mencionou a participação do homenageado na caminhada pela construção do sentimento nacionalidade, tão fragmentário em nossos tempos, mas erguido pela consciência honrosa de grandes homens como Euclides. Autores que a Academia Brasileira de Letras ajuda a manter incólumes ao ataque do esquecimento, causado também, paradoxalmente, pelo excesso de informação dos dias atuais. O professor Márcio José Lauria participou da primeira mesa-redonda, cujo tema era: "Euclides e outro sertões: interlocuções na Literatura Brasileira", ao lado de Leopoldo Bernucci, Edmo Rodrigues Lutterbach, presidente da Academia Fluminense de Letras, e Ronaldes de Melo e Souza, professor da UFRJ, este último com uma clareza analítica capaz de focalizar sem rodeios alguns aspectos centrais das obras literárias que quase sempre são negligenciados pela crítica em geral.  Antônio Olavo
O documentarista e procurador de justiça do estado do Acre, Rodrigo Neves, interagiu com o Seminário em suas duas áreas de atuação: tanto em debates na praça central de Cantagalo como em palestras no Hotel Fazenda Pesqueiro da Aldeia, após a apresentação de seu documentário Epopéia Euclydeacreana. Outro que teve o mesmo expediente foi o cineasta Antônio Olavo (foto acima), após a apresentação de seu filme Paixão e Guerra no Sertão de Canudos. Este último veio da Bahia até Cantagalo, chegando a dirigir mais de 14 horas na véspera de sua chegada, apenas por fazer questão de estar presente naquele evento que considerou, como todos, de grande importância para o euclidianismo.  Leopoldo Bernucci, Regina Abreu e Noilton Nunes
O Seminário contou, ainda, com a presença da professora Regina Abreu, da UNIRIO, que em sua palestra abordou os conceitos de memória e empoderamento social, tentanto compreender a quase imediata aceitação da obra "Os sertões" nos setores ilustrados da população carioca, à época de seu lançamento. Durante uma impecável exposição oral, Regina ressaltou ainda o papel da crítica literária, que alçou Euclides e seu livro ao status de clássico nacional. Gonçalo Ferreira da Silva (foto abaixo), cordelista e presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, também esteve tanto no Hotel Fazenda quanto com o público da praça central de Cantagalo. Nas duas ocasiões, expôs sua arte e realizou apresentações primorosas das técnicas de produção da literatura de cordel, recheadas de poesia e comicidade, o que fez com que as plateias assistissem atentas aos repentes do poeta.  Gonçalo Ferreira da Silva
O Seminário teve ainda o prazer de receber o Dr. Manuel Clístenes de Façanha e Gonçalves, autor de uma biografia de Euclides e de um estudo sobre o processo criminal da morte do autor e de seu filho, Euclides da Cunha Filho; as professoras Anélia Pietrani e Magali Alonso; o cineasta e autor do filme A Paz é Dourada, Noilton Nunes; além do doutorando João Batista Pereira, com sua originalíssima tese sobre o trágico em Euclides da Cunha, entre tantos outros nomes. No sábado, a apresentação de trabalhos de Iniciação Científica de graduandos e projetos desenvolvidos em mestrados e doutorados, durante as sessões de comunicações no hotel-fazenda, mostrou o que a memória de Euclides permanece viva nas universidades. Destaque para diversos trabalhos, especialmente originais e interessantes. Na noite deste dia, a fazenda centenária Mont Vernon, nas cercanias do lugar onde Euclides da Cunha nasceu, recebeu o Grupo de Teatro Amador do Colégio Anchieta, o TACA, para uma emocionante apresentação da peça Eternamente Euclides, sob as luzes bruxuleantes de lampiões que ambientaram a cena, remontando ao século XIX.  Anabelle Loivos e Luiz Fernando Sangenis como o grupo TACA
Os três dias de Seminário contaram, ainda, com a presença de dois ilustres representantes de São José do Rio Pardo, cidade que realiza o maior culto no país a Euclides da Cunha e que já dura noventa e sete anos: João Luiz Cunha, prefeito de São José, e Lúcia Helena Vitto (foto abaixo), diretora da Cultura e da Casa de Cultura Euclides da Cunha, participando de debates.  Lucia Helena Vitto, de São José do Rio Pardo
 Rodrigo Neves, Maria Olívia, José Carlos Barreto e Fadel David A. Filho
 Pôsteres em exposição durante o Seminário
A bela manhã de domingo no verdejante hotel-fazenda Pesqueiro da Aldeia serviu de palco para a segunda mesa-redonda (segunda foto acima) , com o tema "A presença de Euclides da Cunha na Amazônia". Estavam na ocasião os professores José Carlos Barreto de Santana (UEFS-BA) e Fadel David Antônio Filho (UNESP-RIO CLARO), que também participam da Semana Euclidiana riopardense, e o já mencionado cineasta Rodrigo Neves (procurador do estado do Acre). Em paralelo, o público pôde prestigiar a exposição de diversos pôsteres (foto acima) no quiosque central do hotel. Em seguida à mesa redonda, houve o lançamento de livros que exploram temáticas relacionadas à obra de Euclides da Cunha, com autores como Edmo Lutterbach e Aleílton Fonseca, com destaque para o livro O Pêndulo de Euclides (foto abaixo), deste último, uma ficção que encontra palco no Arraial de Canudos.  Aleilton Fonseca (acima) e seu livro "O Pêndulo de Euclides"
 O Dr. Edmo Rodrigues Lutterbach lança livro durante o Seminário
 João Luiz Duboc Pinaud lê Euclides da Cunha
Na tarde de domingo, após o almoço, esteve no hotel-fazenda o advogado e membro do grupo "Tortura Nunca Mais", João Luiz Duboc Pinaud (foto acima). Com a serenidade e a simpatia de costume, que encanta pessoas de todas as idades, Pinaud falou sobre a experiência de ler Euclides quando jovem e sobre a construção de seu senso crítico com base nas obras do escritor, em um diálogo quase informal com o público. Em outro espaço de diálogo com os participantes do Seminário, também no domingo, o cineasta Antônio Olavo apresentou uma palestra repleta de franqueza, tal qual seu documentário "Paixão e guerra no sertão de Canudos". Sua perspectiva diferenciada sobre a produção cinematográfica popular em contraponto ao cinema comercial no Brasil serviu para a afirmação do valor da sétima arte como um instrumento de acesso ao conhecimento de mundo por parte do público, e não apenas como mera diversão consumista.  Berthold Zilly
Já na noite de domingo, após a aula-show de Ariano Suassuna, relatada ao final desse texto, a última e não menos importante palestra foi proferida por Berthold Zilly (foto acima), professor da Universidade Livre de Berlin e tradutor de Os Sertões para o alemão. Dono de inteligência e sensibilidade estética únicas, Berthold Zilly destacou as qualidades polifônicas do texto de Euclides, que tem a capacidade de falar do Brasil e chamar a atenção de leitores do mundo todo. O professor fez menção ao papel intelectual de Euclides no escopo do início do século XX, ao valor de sua intermediação nos conflitos da Amazônia brasileiro-peruana e, por fim, ressaltou a genialidade e a perenidade de sua obra, que mais de um século depois de sua morte pode ser ricamente explorada por tanta gente especialmente interessada nela. Um desfecho capaz de fazer os presentes no auditório compreenderem e sentirem a importância de Euclides da Cunha para o Brasil e para o mundo. AS GRANDES SURPRESAS
 Alunos do Colégio Euclides da Cunha prestam homenagem ao autor
Entre tanta coisa interessante, duas foram enormes surpresas: a primeira, o resultado do projeto pedagógico desenvolvido pela coordenadora do Projeto 100 anos sem Euclides, Anabelle Loivos e sua equipe junto às escolas locais. Os alunos do Colégio Euclides da Cunha de Cantagalo desenvolveram jograis, letras de samba e outras atividades, e um grupo do 9.° ano se apresentou, finalizando com a aluna Evelyn, contadora de histórias, que roubou a cena e teve seu dia de estrela (foto acima), pois reprisou a performance antes da palestra do autor paraíbano Ariano Suassuna e ganhou até um beijo do emocionado escritor. A apresentação fez parte do projeto que culminou na edição de um livro contando a biografia do escritor, dirigido ao público infantil, projeto este encabeçado pela professora Fabiana Figueira Corrêa (Colégio Euclides da Cunha). Grande e belíssimo trabalho, que faz jus aos nossos parabéns a todos os seus integrantes!  Ariano Suassuna
A outra grande surpresa foi mesmo a presença de Ariano Suassuna (foto). Encantador e jovial, mesmo nos seus mais de oitenta anos de existência, esbanjou sua elegância: de terno escuro, camisa e meias vermelhas. O escritor divertiu a plateia o tempo todo, falando jocosamente de coisas sérias e destacando, nas entrelinhas de seu discurso, o valor do culto à literatura de qualidade e ao posicionamento ideológico claro, como o de Euclides da Cunha, em um tempo de tanta relativização. Um verdadeiro show, tal qual o epíteto na programação do seminário prometia. Ouvir a sabedoria de Ariano, em suas palavras irônicas e contundentes, fez com que o público presente se elevasse e pudesse dali partir com a lembrança desse que foi um final de semana inesquecivelmente enriquecedor. Por Raphael Pereira e Maria Olívia Arruda
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